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Questões sobre Linguagem

Edir Alonso Vieira*

Qual é a relação entre língua, pensamento e cultura? Para responder a esse questionamento, faz-se necessário, primeiramente, tomarmos como referência um conceito de língua. Nas palavras de Saussure, a língua seria “produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos". Assim, a linguagem constitui-se como faculdade inerente à condição humana, um conceito mais amplo em que está contida a noção de língua.

Aqui se faz necessário buscar o processo histórico de construção do ser humano enquanto tal, o processo de hominização. Resumida e simplificadamente, podemos afirmar que, com a aquisição da postura ereta, deu-se a sofisticação do aparelho vocal, e a ampliação da caixa craniana. Esses dois fatores permitem, respectivamente, a emissão de sons mais elaborados e a ampliação da capacidade de armazenamento e processamento de informações (o que lhe faculta não somente reagir ao presente, mas reelaborar seu passado e projetar seu futuro). Imaginemos que esse hominídeo, ao esticar-se e pegar (“pinçar” com seu polegar opositor) um fruto pode visualizá-lo (visão focalizante) e, identificá-lo com sua imagem, atribuindo-lhe um símbolo, que será armazenado na memória. Assim se dá o desenvolvimento do pensamento, umbilicalmente relacionado à linguagem: o homem vai atribuindo significado à realidade que o cerca, “nomeando” as coisas (relação significante/significado). É claro que esse “nomear”, inicialmente se utiliza de signos imagéticos, mas esse processo de abstração vai se elaborando até chegarmos à linguagem verbal.

Como vimos, o homem organiza a realidade que o cerca e atribui-lhe significado a partir da linguagem. Esta é a capacidade inata do ser humano de indicar as coisas, de expressar suas idéias, valores e sentimentos, e de comunicar-se com seu semelhante. Sabemos, porém, que inúmeras são as possibilidades de se configurar a realidade de um grupo social. Diferentes realidades físicas, geográficas e socioculturais se manifestam em códigos peculiares: as línguas como produto social da linguagem.

Nesse diapasão, a cultura, concebida como a produção e a transmissão do conhecimento da experiência humana, relaciona-se diretamente com a linguagem. É a partir dela que o grupo social apreende o mundo. Em contrapartida, é a partir da língua, esse sistema que diz respeito ao grupo (comunidade lingüística), que a realidade adquire significado e se ressignifica. É na teia da língua que se estabelecem as relações do homem com o meio e as interações sociais, as relações políticas. Em outras palavras: as relações de poder do homem sobre a natureza e do homem sobre seu semelhante.

Já vimos a linguagem como um atributo humano, essencialmente ligado ao próprio processo de hominização. Todavia, são freqüentes os questionamentos em torno de uma “linguagem animal”. Indubitavelmente, os animais estabelecem comunicação entre si. Emitem sinais para defender seu território, por exemplo, e se fazem “entender”. Esses sinais podem, inclusive, compor um sistema de surpreendente complexidade, como aquele revelado no célebre estudo de Karl von Frisch, sobre a comunicação das abelhas, que sinalizam a localização do alimento de acordo com um variado repertório de movimentos no ar. Mas então, o que diferencia a linguagem humana da comunicação estabelecida entre os demais animais? A “linguagem animal” é instintiva, funcionando em uma cadeia de estímulos e respostas. Não sendo dotada de variabilidade, não evolui, não se transforma. Já o homem, podemos dizer com base no raciocínio explicitado na questão anterior, produz linguagem: o sistema comunicacional humano envolve a interação, o posicionamento de um sujeito em relação ao outro e a consciência do ato comunicativo. Assim, a linguagem humana pode processar-se sobre a própria linguagem. Um homem pode fazer referência à fala de outro homem, não se limitando apenas à reação imediata aos estímulos do meio. Se um homem disser: “eu vejo o horizonte”, um segundo homem poderá dizer sobre aquele: “Ele vê o horizonte”.

A linguagem, em sentido estrito, é, portanto, um fenômeno humano. É, ao mesmo tempo, um sistema, o meio através do qual se descreve e interpreta a realidade e, fundamentalmente, uma prática social concreta.

* Professor de Literatura do Colégio João Paulo I

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