Colégio João Paulo I

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Por que estudar música?

Cláudia Schneider Marques*


Por que estudar música? Essa é uma pergunta que todo o professor de música já deve ter escutado e respondido várias vezes. Mas será que esse questionamento tem realmente uma única resposta? A idéia desse texto não é responder essa pergunta, mas criar questionamentos e provocar reflexões para que cada leitor encontre a sua resposta. Essa discussão, na verdade, é muito antiga. Já encontramos questionamentos dessa natureza nas anotações de Platão (427 – 347 a.C.), que criticava os que enxergavam o campo musical como “mera recreação”[1].

Tratada como recreação ou não, a verdade é que a música está presente na humanidade desde os tempos mais remotos. No início, provavelmente a atenção do homem tenha se voltado para o som por questões de comunicação e sobrevivência. Acredita-se que as primeiras manifestações “musicais” humanas tenham sido resultantes de tentativas de imitar os sons da natureza.

Na Grécia, uma origem divina era atribuída à música. Apolo, Anfião e Orfeu, deuses e semideuses, eram considerados seus inventores e primeiros intérpretes. Assim como na Grécia, em praticamente todo o mundo a música foi e é intimamente ligada a ritos religiosos de diversos tipos. Na Bíblia Sagrada, há incontáveis trechos em que são citados instrumentos musicais: “Tomai um salmo, e trazei junto o tamborim, a harpa suave e o saltério”[2]. A música esteve sempre presente nas cerimônias religiosas da Igreja Católica e teve papel importante também no período da Reforma. Na Europa, desde a Idade Média, a música fazia parte de eventos sociais e era importante para a colocação social de pessoas na sociedade.

Quando a corte portuguesa veio para o Brasil, em 1808, trouxe consigo alguns de seus compositores e instrumentistas, que acabaram, por aqui, misturando sua música com a dos índios (que, na época do descobrimento, já foram encontrados com seus instrumentos feitos de sementes, cabaças, troncos e uma vasta cultura musical, também ligada a rituais) e com a dos escravos africanos (possuidores de uma riquíssima cultura musical melódica e percussiva, que vemos até hoje muito presente na música brasileira).

Além da relação com a religião e espiritualidade, a música também tem ligação importante com outros aspectos da humanidade. Basta que recordemos quantas vezes, em momentos políticos importantes da História, a música esteve presente em protestos e em comemorações; tanto o é, que cada país tem seu Hino Nacional e o utiliza em situações solenes.

Vejamos como a música se manifesta nos dias de hoje: ela está presente na televisão, em sites da Internet, no telefone, no teatro, no cinema. A ouvimos para fazer a caminhada diária, para limpar a casa, para relaxar no final do dia. Quando vamos à uma festa, lá está ela. Quando vamos a uma solenidade (de formatura, de posse em algum cargo importante), há música.

Esse assunto é demasiado amplo para ser discutido profundamente e detalhado nesse texto, que nem tem essa pretensão. A idéia aqui é dar uma rápida e superficial pincelada pela história da humanidade, apenas para refrescar a memória. Certamente, a partir do que foi citado, cada leitor vai lembrar de muitos outros fatos e situações em que a música foi e ainda é utilizada em nossa vida.

Voltemos, agora, para o questionamento inicial: por que estudar música? Quantas horas por dia os nossos jovens ouvem música? Eles desfilam para cima e para baixo com os seus mp3, mp4, mp5, ipod’s e uma infinidade de músicas dentro de cada um deles. Mas que músicas são essas? E se é algo tão intenso, tão presente em nossa vida e na dos nossos jovens, por que deixar de estudá-la, de conhecê-la?

Beatriz Ilari[3] faz pesquisas sobre a música e o desenvolvimento da mente no início da vida. Embasada por vários cientistas e pesquisadores, Ilari diz que a época da vida em que o cérebro humano é mais maleável e em que os efeitos da aprendizagem são maiores é a infância. Segundo a autora, do período do nascimento até os dez anos de idade estão se desenvolvendo e se tornando mais refinadas as distinções entre alturas (freqüências dos sons, notas), timbres (características que nos permitem identificar a fonte sonora, “impressão digital do som”) e intensidades.

Gardner (1997) também coloca o foco nessa fase da vida em seu livro intitulado As artes e o desenvolvimento humano e fala:

“Durante o primeiro ano de vida, a maioria das crianças prestará atenção a um estímulo musical, e nos primeiros dois anos elas serão ativadas quando ouvem música, embalando-se para frente e para trás, marchando, rolando ou prestando uma grande atenção.”

A professora Dra Esther Beyer, da UFRGS, em seu projeto Música para Bebês, trabalha a música com crianças desde muito cedo, com turmas que vão de zero a dois anos. Em aulas dinâmicas, com a participação dos pais, a criança acompanha tudo com atenção e, segundo a professora, “a capacidade de concentração (...) é base para qualquer aprendizagem posterior, não só da música”. É na infância também que as crianças desenvolvem preferências e memórias musicais que carregarão por toda a vida (ILARI, 2005).

João Luis de Almeida Machado[4] acredita ser positivo para a aprendizagem escolar o estudo da música, como o de outras artes e áreas do conhecimento, afirmando que

“as escolas devem se esforçar para criar espaços onde talentos possam florescer. Isso significa na prática que aulas de artes, escolinhas esportivas, clubes literários, grupos de teatro, oficinas de filmagem, oratória e tantas outras atividades podem e devem ser incorporadas ao cotidiano educacional. A escola passa a ser vista pelos estudantes como um lugar muito mais interessante e, ao mesmo tempo, abrem-se oportunidades para que a arte, os esportes, a literatura ou a ciência ganhem novos expoentes e experimentos.”[5]

Uma criança que tem o hábito de estudar um instrumento musical poderá ter – naturalmente – mais facilidade de concentração do que uma criança que não tem esse hábito, pois esta está associada a essa prática diária. Não devemos, no entanto, pensar que o simples fato de uma criança estudar música vá fazê-la se sair bem na escola. Como diz Machado, o estudo desses novos conhecimentos pode aumentar o interesse da criança pela escola e, aí sim, causar algum efeito nas outras disciplinas. Em sua pesquisa, Ilari (2005) encontrou, nos estudos de vários pesquisadores, evidências de alguma melhora no desenvolvimento cognitivo de crianças que estudavam piano em comparação a crianças que não estudavam esse instrumento. Porém, esses estudos não apresentam resultados significativos e não há garantia dessa ligação direta entre o estudo da música e a aprendizagem de outros conteúdos.

O que é verdade, e se sabe pela prática, é que a música pode ser utilizada também como ferramenta de auxílio para a aprendizagem de outras disciplinas. Aqui, mais uma vez, podemos voltar à Antigüidade: Roosevelt Araújo da Rocha Júnior[6] conta que povos antigos que ainda não haviam desenvolvido a escrita, cantavam suas leis para memorizá-las.

Kátia Maria Abud[7] comenta a utilidade de diversos elementos que servem de referência para a construção do contexto histórico pelos alunos, entre eles, a música:

“Imagens e objetos vistos e observados; letreiros, textos, cartazes, pichações lidos de passagem; audição de músicas; a conversa trocada com amigos; tudo isso tem se constituído em linguagens da História, e de fontes para o conhecimento histórico acadêmico; passam a ser recursos didáticos para auxiliar o aluno na construção do seu conhecimento.” [8]

Não podemos esquecer, porém, que a música é uma arte com conteúdos próprios que podem e devem ser estudados com o intuito de desenvolver a sensibilidade e a percepção, ampliar o leque de opções na hora de escolher o repertório a ser ouvido e apreciado, além de desenvolver novas habilidades, como a prática de algum instrumento musical, por exemplo.

Os novos expoentes e experimentos citados por Machado são muito bem-vindos em um país, onde, a cada dia, um novo “sucesso musical” de qualidade duvidosa chega ao topo das paradas e vira febre entre os jovens. Volto à pergunta que fiz alguns parágrafos anteriores: que músicas são essas que os jovens estão ouvindo em seus mp3, mp4, mp5 e ipod’s? De onde elas vêm? Quem são seus compositores? Sobre o que elas falam? Elas possuem qualidade musical? Foram gravadas com bons instrumentos? As vozes são utilizadas de forma saudável e correta para servir de modelo às nossas crianças e adolescentes? O volume em que eles escutam essas músicas nos fones de ouvido é seguro para preservar sua audição?

Essas são algumas perguntas que, como professora de música, me faço freqüentemente. Procuro abordar esses assuntos nas aulas de música a fim de proporcionar aos alunos subsídios para que eles possam escolher, da melhor maneira possível, o que ouvir e como ouvir.

Embora a música não caia no vestibular, o grande fantasma dos estudantes na atualidade, ela faz parte da vida, provavelmente desde o nascimento até o findar dela e isso, cá entre nós, é muito mais importante do que um mero concurso como o vestibular ou, pelo menos, dura muito mais do que quatro dias de prova. Além disso, conhecimento “não ocupa espaço em disco”, isto é, não é espaço mal preenchido em nossa cabeça e o conhecimento musical pode até servir para incrementar a redação, outro fantasma do vestibular, e fazer a diferença.


Referências Bibliográficas
GROUT, J. D.; PALISCA, C. V. História da Música Ocidental. Trad. Ana Luísa Faria. 4ª ed. Rio de Janeiro: Gradiva, 1997.
GARDNER, H. As artes e o desenvolvimento humano. Trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
PIEPER, J. Sobre a Música. Trad. FERREIRA, S. H. Disponível em: www.hottopos.com/videtur8/piepermu.htm. Acesso em maio de 2008.
Bíblia. Salmos. Português. Bíblia On line. Disponível em: www.bibliaonline.com.br. Acesso em maio de 2008.
ILARI, B. A música e o desenvolvimento da mente no início da vida: investigação, fatos e mitos. In. Revista Eletrônica de Musicologia. Vol. IX, outubro de 2005. Disponível em www.rem.ufpr.br/REMv9-1/ilari.html. Acesso em maio de 2008.
MACHADO, J. L. A. Shine, Brilhante: em busca da harmonia. Artigo disponível no site Planeta Educação: www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=250. Acesso em abril de 2008.
ROCHA JÚNIOR, R. A. da. A invenção dos Nomos e seu desenvolvimento no “Sobre a Música” de Plutarco. Calíope, 15, 2006. Rio de Janeiro. pg. 112-130. Disponível em www.letras.ufrj.br/pgclassicas/caliope15.pdf. Acesso em maio de 2008.
ABUD, K. M. Registro e representação do cotidiano: A música popular na aula de História. Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n°67, p. 309-317, set./dez. 2005. Disponível em www.cedes.unicamp.br. Acesso em maio de 2008

[1] Citado por Pieper, J. Sobre a Música. Tradução de Ferreira, S.H. 1988. Disponível em: www.hottopos.com/videtur8/piepermu.htm acessado em maio de 2008.
[2] Salmos 81:2
[3] Professora do Curso de Música da UFPR
[4] Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo
[5] MACHADO, J.L.A. Shine, Brilhante: em busca de harmonia. Artigo disponível no site: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=250 acessado em abril de 2008. Este artigo é um comentário sobre o filme Shine (1996), fazendo conexões da relação do pianista famoso com o seu pai opressor do filme, com a educação, o estudo da música e de outras áreas do conhecimento.
[6] Em seu artigo A Invenção dos Nomos e seu Desenvolvimento no “Sobre a Música” de Plutarco.
[7] Professora de Metodologia de Ensino de História da Faculdade de Educação da USP.
[8] ABUD, K.M. Registro e Representação do Cotidiano: A música popular na aula de história. Cad. Cedes, Campinas, vol 25, n° 67, p.309-317, set./dez. 2005. Disponível em www.cedes.unicamp.br acesso em maio de 2008.

* Cláudia Schneider Marques é professora de música, formada em Licenciatura em Música - Piano e Bacharelado em Regência Coral pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.