Colégio João Paulo I

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Pobres meninos ricos

A literatura contemporânea acerca dos fenômenos sociais propõe que os tempos atuais estão atravessados pelo individualismo e pelo consumo, o que pode ser observado, inclusive, no comportamento de crianças e adolescentes. A fim de que possamos ampliar nossas reflexões sobre o tema, o Informação a distância destacará, nesta edição, o texto gentilmente enviado pelo Sr. Gilnei Roberto Schmidt, responsável por nosso aluno Luan Vieira - da 6ª série, Unidade Zona Sul.

Pobres meninos ricos*

Quando uma amiga me contou que haviam afanado a carteira da filha dela dentro da escola – uma daquelas escolas caras e cheias de carros bonitos estacionados em volta – imaginei que fosse um caso isolado. Depois ela foi me contando que furtos eram relativamente comuns na escola tal e na outra tal também, onde as filhas já haviam estudado. Comentei a história, pasma, com outras amigas, e o rumo da conversa me deixou mais surpresa ainda: todo mundo conhecia um adolescente de quem tinha sido furtado um celular, um tocador de MP3, o dinheiro da merenda – e tudo isso dentro do ambiente aparentemente protegido de uma escola particular.

O problema é escabroso, e não é de se espantar que venha sendo tratado de forma tão discreta pelas escolas e pelos próprios pais. Uma coisa é estar alerta para a segurança do prédio, colocar gente para cuidar a saída dos alunos, câmeras, grade nas janelas, muros altos e de vez em quando perceber que todos os cuidados privados não são suficientes para isolar a escola dos problemas públicos da cidade. Outra bem diferente é lidar com um pepino moral deste tamanho: adolescente de classe média, bem nutridos e bem calçados, passando a mão em objetos dos colegas.

Não é preciso fazer um raciocínio muito complexo para ligar esses episódios de furto ao contexto de consumismo extremo em que crianças e adolescentes, de todas as classes sociais, estão sendo criados. Se poucos adultos lembram de ter sido furtados nos tempos de escola talvez seja porque até 15 ou 20 anos atrás o maior objeto de consumo que um adolescente poderia levar para a sala de aula era um estojo de ímã com três andares. Hoje, eles têm à disposição do cartão de crédito dos pais (às vezes generosos e solícitos muito além da conta do bom senso) um inesgotável arsenal de gadgets aparentemente indispensáveis – e não por acaso programados para tornarem-se superados antes mesmo do primeiro arranhão na lataria. A satisfação de “ter” alguma coisa dura tão pouco que muitos não conseguem se contentar apenas com a boa-vontade dos pais em atender seus impulsos de consumo. Nesses casos, a mochila do colega distraído acaba sendo a cenoura na frente do coelhinho.

Furtos na hora do recreio não entram nas estatísticas de criminalidade urbana e provavelmente não indicam que os jovens gatunos, de celular ou de canetinhas coloridas, inclinem-se para o submundo do crime. Mas são um enorme alerta vermelho de que algo está muito errado na forma como as famílias e a própria escola estão lidando com problemas tipicamente contemporâneos como a cultura do individualismo e do consumo exagerado.

Na semana em que um movimento de estudantes ajudou a derrubar o reitor de uma universidade, a discussão sobre a importância de olhar além do próprio umbigo e de acreditar que as causas coletivas podem ser muito mais bacanas que um celular de última geração deveria ser tema de casa obrigatório – em todas as escolas e em todas as famílias.


*Cláudia Laitano – Fonte: Zero Hora