Colégio João Paulo I

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A influência da família nos processos educativos e de socialização da criança

O desenvolvimento cognitivo infantil é tarefa compartilhada entre duas grandes instituições da nossa sociedade: a família e a escola. A escola também cumpre o papel de preparar as crianças para viver no mundo adulto. Através da escola, elas aprendem a trabalhar, assimilar regras sociais, sendo esta, a mediadora entre a criança e a sociedade.

A literatura contemporânea sobre as transformações vividas por nossa sociedade aponta para mudanças na forma de interagir com as crianças e adolescentes. Nesse sentido, a escola tem buscado trabalhar, em conjunto com os aspectos pedagógicos, outros fatores que estão correlacionados com o desenvolvimento de crianças, a fim de prevenir problemas de comportamento e desempenho.

Em relação ao comportamento infantil no contexto escolar, pesquisadores da área da Educação e Saúde Mental destacam os efeitos positivos do envolvimento dos pais na vida acadêmica dos filhos. Segundo as pesquisadoras do estudo a que se refere este texto, este envolvimento diz respeito às interações dos pais na realização dos trabalhos escolares dos filhos e ao encorajamento verbal e de reforço direto de comportamentos que produzam melhora no desempenho acadêmico, o que supõe suporte e monitoramento das atividades diárias e do progresso escolar.

Problemas de desempenho ou de comportamento na escola são causas comuns de estresse para pais e filhos. Sem orientação adequada e com pouco tempo, alguns pais acabam usando de práticas coercitivas (agressões físicas e castigos) para tentar mudar o comportamento da criança em relação aos estudos. Alguns autores referem que essas dificuldades podem gerar comportamentos infantis de esquiva e de fuga da situação. As crianças, portanto, podem se recusar a ir à escola, podem mentir dizendo que não têm tarefa de casa etc. Os pais, então, podem castigá-las por seu comportamento e um novo ciclo se inicia. Nesses casos, pesquisadores afirmam que mudanças em contingências familiares e suporte pedagógico podem ser necessários. Segundo os autores, o envolvimento dos pais na vida acadêmica dos filhos é um aspecto que deve ser incentivado porque pode promover condições favorecedoras para a aprendizagem.

Embora atualmente a maioria dos pais trabalhe fora e tenha pouco tempo disponível para a vida doméstica, as necessidades referentes ao adequado desenvolvimento das crianças continuam as mesmas: dedicação, afeto, estimulação, experiências diversas etc. Parte dessas responsabilidades não pode ser atribuída à escola, e não apenas em razão de dificuldades estruturais, mas porque algumas responsabilidades não podem ser transferidas de um contexto a outro. Nesta medida, serão destacadas algumas das orientações publicadas pelas autoras, que têm a finalidade de colaborar para que os pais promovam o desenvolvimento de comportamentos facilitadores da aprendizagem e possam participar mais ativamente da vida acadêmica dos filhos.

Tornar explícitos os deveres e os direitos dos filhos

Deve ser ensinado aos filhos, desde pequenos, que eles têm direitos e deveres. Uns não existem independentemente dos outros, pois estão relacionados. Há direitos que são adquiridos, em geral, após o cumprimento de alguns deveres ou sob certas condições. Assim, cumpridos os direitos básicos e incondicionais dos filhos, os pais devem deixar claramente especificados quais são os seus deveres e direitos. No caso de não se cumprir um dever, não se pode usufruir o direito relacionado. Por exemplo, a criança pode ter como dever fazer suas tarefas escolares. Depois disso, terá direito de ligar a TV. Se não cumpre seu dever, não pode usufruir o direito. Se os pais estabelecem essas normas e exigem seu cumprimento incondicional (nunca poderá ver TV sem antes ter feito as tarefas escolares), observarão que a criança apresentará comportamento responsável. Isso contribui, por exemplo, para que os filhos se responsabilizem pela realização de suas tarefas escolares.

Estabelecer uma rotina organizada

Rotina se refere aos horários definidos para a realização das diversas atividades que a criança deve cumprir a cada dia. Sua organização supõe a distribuição dos horários para os estudos. Assim, é importante que os horários estejam claramente estabelecidos: hora de ir à escola, de comer, de estudar em casa, de realizar atividades como brincar e assistir à TV etc. Sempre que possível, deve-se incentivar a convivência familiar durante as refeições, as atividades escolares, ao assistir à TV etc. Esses momentos passados juntos devem ser prazerosos. Ficar fisicamente próximo à criança durante seus momentos de estudo em casa (seja para auxiliá-la nas tarefas, seja para apoiá-la) contribui para que o horário de estudos torne-se agradável e não solitário. As crianças aprendem muito rapidamente observando os adultos. Se os pais estabelecem também uma rotina para si, deixam-na exposta (em um cartaz, por exemplo) e a cumprem, poderão ajudar seus filhos servindo como modelo de responsabilidade e autocontrole. Além disso, crianças que vêem seus pais lendo ou realizando atividades similares às atividades escolares (ler, escrever, estudar etc.) aprendem que essas são valorizadas pela família e passam a valorizá-las também.

Estabelecer limites

Crianças devem ser ensinadas a conviver em sociedade e necessitam de normas de conduta claras. Não permitam os pais que elas ditem as regras da casa. Quando têm um tempo disponível para o filho e são afetuosos, os pais têm maior probabilidade de se sentirem seguros e tranqüilos para delimitar tais regras. A criança sem parâmetros fica desafiando os adultos até conseguir ouvir um basta de pais já irritados e exaustos. Nessa situação, os pais tendem a ser muito mais punitivos e severos. A autoridade deve ser exercida sem autoritarismo, e a última palavra deve ser sempre dos pais. Devem, também, ser respeitados os limites físicos, intelectuais, sociais e emocionais da criança. A prática de atividades extracurriculares pode dar oportunidade ao indivíduo de se sentir competente e valorizado e tal condição pode-se generalizar para a escola. A criança que se sente mais competente melhora seu autoconceito e sua auto-estima.

Supervisionar atividades

Quanto mais nova a criança, maior a necessidade de supervisão de suas atividades. Pesquisas afirmam que o progresso na aprendizagem escolar está relacionado à supervisão e à organização das rotinas do lar. Supervisionar inclui verificar se a criança está cumprindo os horários da rotina e orientá-la na execução das tarefas. A criança não pode se sentir abandonada. Embora necessite que o adulto a oriente, é inaceitável que os adultos façam as atividades por ela. Quando os pais fazem os deveres escolares de seus filhos, estes geralmente se sentem incapazes.

Dosar adequadamente proteção e incentivo à independência

As antagônicas atitudes de superproteção e de permissiva independência podem prejudicar o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança. Ela deve aprender a ser independente, mas sem se sentir abandonada. Para isso, os pais devem conciliar o supervisionar com o conceder independência gradativa ao filho. Dessa forma, é importante aprender a observar a criança, avaliar suas capacidades, suas preferências e seu ritmo, que devem, na medida do possível, ser respeitados. Os pais devem avaliar que atividades são realmente importantes para a criança a fim de organizarem uma agenda que a deixe realmente feliz, sem excessos de obrigações não condizentes com sua idade e interesses.

Prover um ambiente com recursos e instrumentos para estudar

É necessário dispor um ambiente adequado para o estudo, possibilitando um espaço físico sem distrações, com pouco ruído, arejado, iluminado e organizado. Deixar acessível o material necessário para a realização das tarefas escolares, além de demonstrar disponibilidade para consulta ou para pedidos de ajuda em caso de dúvidas. É importante que a harmonia e a tranqüilidade também estejam presentes. Um ambiente caótico não promove a educação.

Estabelecer interações positivas

Os pais devem estabelecer condições que propiciem comportamentos considerados relevantes para a educação de seus filhos. A criança não nasce responsável, mas aprende a se comportar responsavelmente. A forma adequada de conseguir esses resultados é criar condições para que a criança tenha o comportamento adequado, por exemplo, acompanhá-la à mesa de estudos, apresentar recompensas imediatas quando o comportamento adequado ocorrer ("Está legal nós dois aqui estudando juntos"); especificar porque ela está sendo recompensada ("Você está se esforçando pra valer!"), o que contribui para fortalecer os comportamentos adequados. Além disso, o incentivo, o estabelecimento claro de limites, instruções e uma disposição para fornecer dicas eficientes aumentam o interesse e a satisfação das crianças pelos estudos. Elogios sinceros, imediatos e contextuais relacionados às respostas da criança aumentam a probabilidade do comportamento de estudar (Hübner, 1999). Portanto, os pais devem elogiar sempre o empenho em qualquer atividade. Qualquer criança precisa de palavras de afirmação e de encorajamento por seu envolvimento nas tarefas.

Demonstrar afeto

Reforçar positivamente o comportamento é uma forma de possibilitar o desenvolvimento da auto-estima. Atualmente, fala-se muito em afeto, mas valoriza-se o desempenho (produção e competência). A disciplina e o estabelecimento de limites e de regras só são efetivos quando os pais demonstram amor pelos filhos. Tal demonstração deve ser feita através da organização de um tempo para desenvolver atividades com eles e expressar seu amor por eles, através de atos e palavras. As atividades escolares podem ser uma oportunidade para a demonstração de afeto a que se acrescenta a conscientização da necessidade de trabalhar aspectos cognitivos, afetivos, sociais e físicos. Atualmente, sabe-se que para o desenvolvimento cognitivo é necessário que as demais áreas também se desenvolvam.

Promover diálogo

Os pais devem estar disponíveis para que a criança tenha liberdade e vontade de procurá-los para conversar e esclarecer dúvidas. Cuidado para que esses momentos não se transformem em monólogos em que os pais apenas questionam, pois isso desestimula a criança. Os pais devem aproveitar esses momentos para também se expressar, contar sobre sua rotina e sua vida, e devem considerar apenas os assuntos de interesse e de capacidade de compreensão da criança. Assuntos de adultos devem ser discutidos com adultos.

Apresentar nível de exigência compatível com o desempenho da criança

Qualquer pai bem intencionado fica ansioso para que o filho tenha um bom desempenho na escola e cumpra suas expectativas. Altos níveis de exigência podem gerar um grau elevado de frustração e um índice maior de desistência e de perda de interesse. Não se deve pensar só em resultados numéricos, mas em auto-estima, em autoconfiança, em relacionamento interpessoal, em capacidade de relaxar, em momentos para brincar. Se os pais não souberem valorizar essas situações, não saberão como incentivar os filhos.

Relacionar o teórico com a prática

Os pais devem valorizar o que a criança está aprendendo, relacionando o conteúdo com suas experiências. Pode-se aprender conceitos valiosos através da administração da mesada (matemática), viagens e mapas (geografia), leitura sobre o local, assuntos de interesse em revistas (português). Aprender deve ser por si só uma atividade reforçadora.

Incentivar o brincar

O dia-a-dia da criança não deve ser transformado em um fazer contínuo. Deve haver períodos para brincar livremente e espaço para descontrair e relaxar. O brincar também favorece o bom desempenho escolar (aquisição de habilidades), melhora a concentração e a autoconfiança. A criança que brinca tem menos problemas educacionais e emocionais.

Interessar-se pela vida do filho

Os pais devem demonstrar interesse pelas atividades da criança não apenas quando as coisas não dão certo (notas baixas, brigas com os colegas, isolamento etc.). Devem participar de reuniões e atividades comemorativas que a escola organiza, demonstrando que valoriza o seu mundo acadêmico. É preciso que a escola e a família sejam parceiras; a escola pouco pode fazer sem o auxílio e a participação direta dos pais. Educar não se reduz à transmissão de conteúdos; educar é preparar para a vida, para seus desafios e para a realização pessoal.

* Texto baseado no artigo ‘Envolvimento dos pais: incentivo à habilidade de estudo em crianças’ de Maria Rita Zoéga Soares, Sílvia Regina de Souza e Maria Luiza Marinho. (Revista Estudos de Psicologia – Campinas, dez/2004)