Colégio João Paulo I

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A importância do brincar no desenvolvimento infantil na perspectiva Vygotskiana

Denise Maria Muller Medeiros


Este texto tem por objetivo refletir sobre algumas questões referentes ao processo de desenvolvimento cultural da criança, enfatizando a construção do conhecimento por meio do brincar na perspectiva histórico-cultural. Antes de iniciar o tema propriamente dito, há uma necessidade de revisarmos alguns conceitos importantes sobre o desenvolvimento infantil e a aprendizagem neste contexto.

O Desenvolvimento Infantil e a Aprendizagem na Concepção Histórico–Cultural

Sabemos que – desde o nascimento até os primeiros anos de vida, nas interações com os pais, com os membros da família e com outros adultos – cada toque de carinho, movimento e emoção sentidos por uma criança representam experiências significativas no seu desenvolvimento.

Portanto, é importante fundamentar que o desenvolvimento cultural da criança abrange quatro origens: o filogenético (evolução e patrimônio genético da espécie), o sociocultural (a constituição histórica dos grupos humanos), o ontogenético (desenvolvimento do indivíduo) e, finalmente, o microgenético (transformação de um processo interpessoal em funcionamento intrapsíquico do sujeito). Esses quatro domínios genéticos se interpenetram e são co-responsáveis pelo comportamento humano.

A origem filogenética (responsável pela base biológica) do organismo do indivíduo não é suficiente para lhe garantir o desenvolvimento psíquico típico do homem, isto é, o pensamento, a linguagem, as maneiras de fazer as coisas, a personalidade. A grande diferença entre os homens e os demais seres vivos reside no fato de o desenvolvimento humano e as funções psíquicas superiores criarem-se no coletivo a partir de uma base sociocultural. No plano ontogenético e microgenético, Vygotsky considera que a personalidade é o conjunto das relações sociais “internalizadas” (apropriadas socialmente e reconstruídas individualmente): qualquer função no desenvolvimento cultural da criança aparece em dois planos, primeiro no social e depois no psíquico, primeiro entre as pessoas como categoria interpsíquica, depois dentro da criança intrapsíquica.

Simultaneamente, desenvolvimento e aprendizagem têm sido foco de inúmeras discussões entre psicólogos e pedagogos com o propósito de fundamentar inúmeras pesquisas que sinalizem a compreensão do processo evolutivo do ser humano.

A noção de que a aprendizagem ocorre desde que o indivíduo nasce, a partir de um processo em que o desenvolvimento e a aprendizagem se constituem mutuamente em uma unidade dialética, à medida que o sujeito interage com o mundo, confere à educação papel fundamental.

A principal fonte de discussão para Vygotsky é que a aprendizagem e o desenvolvimento estão inter-relacionados – a criança nasce, ao mesmo tempo, duas vezes: biológica e socialmente, ou seja, já se encontra inserida numa classe social, num grupo cultural, numa comunidade lingüística, e isso será o fator decisivo e importante para o seu desenvolvimento. Portanto, são diversos os processos de desenvolvimento e de socialização da criança, exigindo uma postura de conhecimento não só da criança isoladamente, mas do seu grupo social e cultural. A criança precisa ser considerada como um ser concreto.

Neste contexto, Vygotsky queria descobrir as relações reais entre os processo de desenvolvimento e a capacidade de aprendizado. A aprendizagem infantil começa muito antes de a criança chegar à escola, e para podermos entender melhor as dimensões de aprendizagem escolar é importante identificar e determinar dois níveis de desenvolvimento:

A aprendizagem interage com o desenvolvimento, produzindo abertura nas Zonas de Desenvolvimento Proximal (distância entre aquilo que a criança faz sozinha e o que ela é capaz de fazer com a intervenção de um adulto); potencialidade para aprender, que varia enormemente, porque não é a mesma para todas as pessoas. Exemplo: Uma criança de cinco anos montando um quebra-cabeça com ajuda de um irmão mais velho.

A interação mediada culturalmente entre as pessoas na Zona de Desenvolvimento Proximal é internalizada. Uma outra maneira de dizer tudo isso é que o processo de internalização é fundamental para o desenvolvimento do funcionamento psicológico humano. A internalização envolve uma atividade externa que deve ser modificada para tornar-se uma atividade interna, é interpessoal e se torna intrapessoal.

Para Vygotsky o sujeito não é apenas ativo, mas interativo; por isso, a teoria é chamada de “sócio-interacionista”, Isto é, “... entende que o conhecimento constrói-se na interação sujeito-objeto numa ação socialmente mediada”. (GÓES, 1991, p.21).

É na troca com outros sujeitos e consigo próprio que vai se internalizando conhecimentos, o que permite a formação de conhecimentos e da própria consciência. Nesta concepção, o homem constrói o conhecimento a partir da interação mediada pelo cultural, pelo outro sujeito.

É preciso que nós, adultos e educadores, tenhamos um olhar para a criança diferente de nós, daquilo que projetamos e idealizamos para elas. Precisamos enxergar nas crianças as suas peculiaridades que têm de pensar, sentir e agir sobre o mundo. Acredito que só assim poderemos mudar este quadro de mera reprodução de modelos educativos, bem como nossas interações e intervenções para ultrapassarmos tal paradigma e trazer transformações significativas nas relações, tanto da criança como das nossas, com o mundo e com o conhecimento. Não podemos conceber a criança fora de suas relações com a sociedade na qual está vivendo e interagindo com os sujeitos e com a cultura do grupo social no qual está inserida.

A Brincadeira como Atividade Cultural na Construção do Conhecimento e do Desenvolvimento Infantil

A brincadeira no desenvolvimento infantil é uma atividade cultural, que proporciona para a criança um espaço de aprendizagem, de imaginação e de reinvenção da realidade.

De acordo com Vygotsky (1987), no início da vida da criança, sua ação sobre o mundo é determinada pelo contexto perceptual e pelos objetos nele contidos. Entretanto, quando se iniciam os jogos de faz-de-conta, há um novo e importante processo psicológico para a criança, o processo de imaginação, que lhe permite desprender-se das restrições impostas pelo ambiente imediado. A criança é agora capaz de modificar o significado dos objetos, transformando uma coisa em outra. Assim, o campo do significado se impõe sobre o espaço perceptual. Esse processo tem implicações importantes no desenvolvimento da criança, “... no jogo, as crianças exercitam a imaginação, mas também exploram os papéis dos adultos nas experiências comuns do dia-a-dia”. (MOLL, 1996, p. 223).

Para as crianças, o brincar com panelinhas na areia transformando-a em deliciosos bolos e quitutes representa o jogo imaginativo, um cabo de vassoura transforma-se num cavalo alado, valente e veloz, um pequeno pedaço de tecido torna-se um fantasma que assombra os castelos de bruxas malvadas. Ao criar estas histórias de faz-de-conta, retira os elementos de suas fábulas reais vividas anteriormente, combinando este elementos e transformando-os em algo novo.

O brincar é, portanto, uma das atividades importantes para o desenvolvimento da criança. Através das brincadeiras, a criança pode desenvolver algumas capacidades importantes, tais como: a atenção, a imitação, a memória, a imaginação, a concentração. Ao brincar, as crianças exploram e refletem sobre a realidade e a cultura na qual vivem, incorporando e, ao mesmo tempo, questionando regras e papéis sociais. Podemos dizer que nas brincadeiras as crianças ultrapassam a realidade, transformando-as através da sua imaginação.

O jogo é a mediação da aprendizagem das crianças; neste sentido, Vygotsky nos explica que justamente por estarem “apenas” brincando, elas se sentem livres para se arriscarem a fazer coisas mesmo quando não estão ainda confiantes de que possam fazê-las bem.

No jogo social, as crianças realizam trocas entre si, mediando a aprendizagem umas das outras. Elas aprendem a entender os significados do mundo enquanto brincam com duas representações.(1996, p. 224).

Embora o jogo de faz-de-conta seja caracterizado pela dimensão imaginária, é preciso, segundo Vygotsky, argumentar, que, ao lado do desprendimento possibilitado pela imaginação, encontra-se a subordinação de regras também impostas pela sociedade.

O brincar é um processo histórico e socialmente construído. Isto é, as crianças aprendem a brincar com os outros membros de sua cultura e suas brincadeiras são absorvidas pelos hábitos, valores e conhecimentos de seu grupo social. As crianças descobrem as coisas por maio da própria experiência cultural; ou seja, Vygotsky nos ajuda a entender que, quando as crianças interagem com seus mundos, podem fazer mais do que parecem ser capazes, e extrair muito mais de uma atividade se há um adulto ou participante com mais experiência para mediar a experiência. (MOLL, 1996, p.224).

Portanto, a brincadeira deve ser vista como uma aprendizagem social, fruto das relações entre os sujeitos de um grupo social.

É evidente que por meio das atividades recreativas ou de brincadeiras instrucionais, as crianças podem se beneficiar no aspecto lúdico, de diversão e de prazer, como também do aspecto da aprendizagem, aprendendo muitas noções e habilidades por meio das seguintes brincadeiras, como, por exemplo: “batatinha frita um, dois, três...”, “Cada macaco do seu galho”, “Ciranda-cirandinha” etc.

A brincadeira deve ser um dos principais requisitos para o desenvolvimento de uma infância saudável, principalmente hoje, quando as crianças vivem tão isoladas em apartamentos e não vivenciam brincadeiras coletivas, quando fazíamos quando éramos crianças; era prazeroso e divertido brincar na rua, correr e subir em árvores, brincar de guerra com barro molhado. Enfim, todas estas brincadeiras estão perdendo sentido devido também ao medo e a violência que acerca nossa sociedade nos dias atuais.

Na perspectiva histórico-cultural, a incorporação da brincadeira significa desenvolver inúmeras aprendizagens que contribuam para a ampliação da rede de significados construídos pelas crianças. Devemos organizar diferentes atividades de brincar, oferecendo principalmente para as crianças a possibilidade de livre escolha entre as diferentes opções. O espaço físico das brincadeiras deve ser um convite para a imaginação.

É importante sinalizar que as brincadeiras com regras valorizam o desenvolvimento da criança, delimitam um campo de ação a ser seguido, com base no qual as crianças regulam seu comportamento. As crianças devem brincar com jogos de faz-de-conta que apresentam regras implícitas, mas é importante que aprendam também a brincar com jogos de regras explícitas, tais como: jogos com bola, amarelinha, adivinhas, rodar pião, bola de gude, saltar, pular elástico, empinar pipa, jogar dominó, xadrez, dama, vareta, enfim, muitos outros jogos construídos nas diferentes culturas ou modificados e criados a partir dos já conhecidos.

Finalizando, gostaria de salientar que, quanto mais partilhamos experiências no brincar com as crianças, mais sujeitos criativos estamos formando, dando-lhes maior possibilidade de criar, recriar e transformar a realidade.

Considerações Finais

Brincar passa a ser considerado, portanto, não como mera atividade lúdica, mas fonte de aprimoramento e desenvolvimento infantil. Por isso, tal concepção – desenvolvida ao longo do texto - traz implicações significativas e decisivas para o desenvolvimento infantil, tendo como foco o processo de interação – interlocução adulto/criança e das crianças entre si. É justamente nas atividades realizadas em colaboração e no espaço partilhado que a criança se apropria das habilidades e conhecimentos culturais, ou seja, se desenvolve brincando culturalmente.

Referências Bibliográficas
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