Colégio João Paulo I

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A importância do ato da leitura na formação cultural e social da criança

Kátia Lovatto


Falar em literatura infantil para mim é falar na minha história de vida. Sempre gostei de livros infantis. Quando era pequena, lembro-me da biblioteca da minha escola, naquele tempo parecia-me tão grande... A cada passo que dava, ouvia meus pés batendo no chão de madeira. Um tempo gostoso de uma época que não volta mais. Mas o que nunca passou foi a fantasia das histórias que lia naquela época, a lembrança gostosa delas. Uma doce recordação do cheiro e da textura das folhas dos livros, do calor do sol que entrava pelas janelas da biblioteca. Ler, para mim, é recordar.

Se pensarmos e pesquisarmos sobre a leitura, veremos que ela é considerada uma das atividades mais importantes para desenvolver, na criança, a imaginação, a sensibilidade e a memória. É por meio do contato com o livro que ela adquire vocabulário e conhecimento para fazer sua própria leitura do mundo. É direcionando a competência comunicativa que a criança, a partir da linguagem oral, estabelece uma ponte para a linguagem escrita e para as diversas áreas do conhecimento.

No que se refere à aquisição da linguagem pelo homem, Vygotsky apresenta uma visão histórica da construção da linguagem pela humanidade. Vygotsky fala da inter-relação entre desenvolvimento e aprendizagem, pois o aprendizado impulsiona o desenvolvimento dos conceitos necessários na formação literária da criança. O domínio da leitura é fundamental para a participação social; sendo assim, um instrumento na construção da cidadania.

Com a leitura, rompemos as fronteiras do nosso pequeno mundo e adentramos em novos continentes, voltamos ao passado e viajamos para o futuro, interagimos com diversos autores que despertam e afloram a criatividade e despertam as veias artísticas da criança. Ler liberta a criação e a imaginação!

Se pensarmos na leitura e na escrita desde o tempo das cavernas, perceberemos que nessa época o homem já lia e escrevia. Lia sinais da mudança do tempo, lia as pegadas de animais, lia seus medos e suas vitórias. Com o passar dos tempos, o homem evoluiu e domesticou a natureza. Os tempos são outros, as ferramentas são outras. A leitura, hoje, pode não estar ligada ao homem das cavernas, mas, com certeza, permite novas visões do mundo e transforma as pessoas em cidadãos críticos, com valores éticos, em crescimento permanente.

“Cada criança nasce diferente das demais, tem seu próprio ritmo de crescimento e seu desenvolvimento lhe causa dores e conflitos distintos.” Estas palavras de Anna Freud nos fazem refletir sobre a maneira como cada criança aprende e descobre o seu mundo, sobre a importância que cada adulto tem na formação integral de cada indivíduo, bem como sobre o quanto somos responsáveis pela formação cultural e pelos materiais de leitura que são oferecidos para as crianças. A aprendizagem da leitura é um processo progressivo, no qual a criança absorve experiências e constrói as suas próprias. Como afirma o poeta Carlos Drummond de Andrade, “a criança tem pressa de viver”.

As crianças necessitam de relacionamentos, de trocas e de interações para se realizarem como seres humanos completos, de livros e leituras ricas para brincar, aprender e conhecer para perceber a importância de transformar o mundo a sua volta num lugar mais limpo, justo e igualitário.

Formar um leitor competente supõe formar alguém que compreenda o que lê. O ato da leitura está além do livro. Está em uma dimensão maior. É proximidade, é caminho, é encontro e desencontro e que, pouco a pouco, deixa de ser magia, deixa de ser visto como pura fantasia para fazer parte da vida diária de cada um, inclusive dos adultos que já se permitem em muitos momentos se transportar para este mundo mágico, cuja vida se torna mais leve e bem menos operativa.

De acordo com Ana Maria Machado, “dois fatores levam uma criança a gostar de ler: curiosidade e exemplo. Por isso é fundamental o adulto mostrar interesse”. O adulto que demonstra satisfação ao ler um livro não está somente sentindo prazer. Ele também está convidando outras pessoas a fazerem o mesmo. É por meio do exemplo que cativamos e educamos. O hábito da leitura pode ser natural da criança, mas independe de sua vontade. Se elas vêem em suas casas, por exemplo, os pais lerem com freqüência, despertarão a vontade por esta atividade.

Por meio da leitura, a criança é inserida no contexto social e cria, involuntariamente, o hábito de buscar novas informações e culturas diferentes da sua. Nesse sentido, a leitura é fundamental para a formação de qualquer criança. Ler e contar histórias é uma forma de desenvolver o gosto pela fantasia.

A literatura é o principal veículo de transmissão da herança cultural de todos os povos. É também por meio de diversos materiais de leitura que as crianças passam a conhecer e respeitar as diferenças culturais, políticas e étnicas existentes como base para a construção de uma sociedade democrática e plural. Ela lê, compara e reflete sobre os temas abordados e cria a sua própria imagem, a sua própria conclusão. Por esse motivo, o adulto tem um papel importante na formação literária de cada indivíduo, pois ele deve estar atento ao que é oferecido como leitura.

Embora a literatura contribua para tudo isso, ela pertence mais à gratuidade que à obrigação. Ela dever estar mais ligada ao sabor da leitura do que ao saber da leitura. Portanto, valorizar a leitura deve ser um hábito que nasce na família e ganha reforço na escola. Vivenciar momentos literários deve ser permeado de imaginação, suspense, aventura...

Devemos estar atentos aos livros que serão oferecidos às crianças.

  • Da relação entre o texto e o leitor, existirá quase sempre uma grande possibilidade de encontrar caminhos que nos ensinam alguns segredos da alma e da vida.
  • Para cada etapa da criança é indicado um tipo de livro. As primeiras leituras são feitas por imagens que devem sugerir uma situação. Nessa etapa, a leitura é visual. Pouco a pouco, os textos vão ficando maiores.
  • É importante pensar na fase que cada criança está e adquirir livros que estejam de acordo com a sua faixa etária. Relacionar o texto com o universo da criança é trabalhar com as mudanças do seu jeito de pensar e agir.
  • Utilizar as informações dos textos explorados como subsídio para criar outras produções textuais é socializar a criança com o universo literário.
  • Propiciar um momento de interação entre leitor e texto, tanto na família quanto na escola, auxilia a criança a desenvolver a capacidade de argumentar e a compreender a mensagem e o significado do que é lido.
  • Estimular as crianças com a leitura, como uma maneira de olhar a realidade, utilizando o recorte, a colagem, o rasgado, o jogo e a brincadeira das palavras, incentiva outras formas de olhar o mundo e a sua representação.
  • Dramatizar as histórias antes de registrá-las, amplia a visão da criança sobre o texto explorado, fazendo-a sentir-se incentivada a produzir outros registros escritos.
  • É interagindo com a criança numa troca de imaginações e emoções que a história vai sendo construída e o conhecimento vai sendo ampliado.
  • Cada pessoa possui sua própria bagagem e é ela que nos leva por caminhos desconhecidos que acabam nos transformando e nos construindo.

Referências Bibliográficas
MACHADO, Ana Maria. Mais que alfabetizar. Entrevista in. Revista Nova Escola nº 145, p.20-22, setembro, 2001.
COELHO, Betty. Contar histórias: uma arte sem idade. São Paulo: Ática,1986.
Dica de site sobre literatura infantil: klovatto.vila.bol.com.br

*Pedagoga e contadora de histórias.