Colégio João Paulo I

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A importância do adulto de referência no desenvolvimento do indivíduo

Sabe-se que as transformações ocorridas na sociedade, na estrutura familiar e na forma como os pais foram educados, provocaram dificuldades referentes à educação dos filhos, principalmente na adolescência. Essa etapa do ciclo vital apresenta tarefas particulares, que envolvem todos os membros da família, constituindo-se como uma fase de transição do indivíduo, da infância para a idade adulta, evoluindo de um estado de intensa dependência para uma condição de autonomia pessoal e de uma condição de necessidade de controle externo para o autocontrole sendo marcado por mudanças evolutivas rápidas e intensas nos sistemas biológicos, psicológicos e sociais (Prata e Santos, 2007).

Os autores destacam que a tendência da família contemporânea é ser cada vez mais simétrica na distribuição dos papéis e obrigações. Uma família marcada pela divisão entre os membros do casal referente às tarefas domésticas, aos cuidados com os filhos e às atribuições externas, sujeita a transformações constantes, devendo ser, portanto, flexível para poder enfrentar e se adaptar às rápidas mudanças sociais inerentes ao momento histórico em que vivemos.

Outeiral e Cols. (2008) destacam que parece estar havendo um apagamento das fronteiras entre a infância, a adolescência e o mundo adulto. Os autores acreditam que a relação entre o mundo infantil e o mundo adulto é repleta de desencontros dolorosos. Se, por um lado o adulto é aquele que pode suprir e sustentar a onipotência ilusória do bebê, é, também, quem faz exigências e interdita a onipotência.

Sabe-se que a criança já começa a ter noções do limite quando da aquisição da linguagem, normalmente entre um e dois anos. No entanto, a compreensão dos limites vai sendo internalizada por essa criança ao longo de muitos anos, através do acompanhamento dos pais e cuidadores, enquanto adultos de referência.

Entretanto, Outeiral e Cols. (2008) acrescentam que não é tarefa fácil, na atualidade, descrever o que é ser adulto. As questões relacionadas a cultura contemporânea revelam diferentes manifestações do ser adulto. Assim, algumas tarefas nesta transição se fazem necessárias: a primeira refere-se ao estabelecimento de novas relações com os pais, relações de maior independência e de menor idealização; a desidealização dos pais, aceitando-os como pessoas que também têm suas dificuldades e limitações, é um ponto importante neste processo. A segunda tarefa se refere ao desempenho das atividades profissionais e, finalmente, a terceira diz respeito à aceitação do novo corpo que vai se fazendo adulto, muito na dependência da hereditariedade e também por parte da cultura e do ambiente.

A aceitação do corpo adulto, no entanto, não é uma tarefa simples. A valorização excessiva do estilo de vida adolescente e, o culto à estética como símbolo de beleza são elementos que contribuem para que a adolescência se prolongue. Assim, os autores propõem a existência dos “adultescentes”, que são pessoas imbuídas de cultura jovem, mas com idade suficiente para não o ser. Este neologismo expressa a permanência de valores adolescentes na vida adulta e é uma mistura, no idioma inglês, das palavras “adulto” e “adolescente”.

Os autores destacam ainda a síndrome dos “kidadults”, fusão das palavras “criança” e “adulto”, em inglês, que são os que questionam noções como maturidade e autonomia, e põem em xeque a patologia da vida adulta na sociedade contemporânea. É neste novo contexto, portanto, que se encontra o adulto jovem, cuja tarefa primária é o “acordo” que deverá chegar com a sua família de origem, o qual influenciará profundamente com quem, quando e como executará todos os outros estágios seguintes do ciclo vital familiar (Outeiral e Cols. 2008).

Neste sentido, Prata e Santos (2007) reforçam a idéia de que os adultos têm um papel central neste processo, pois oferecem a base inicial aos mais jovens, a bagagem de regras e normas essenciais para o social. E o que marcaria o ingresso na adultez? O casamento, o nascimento dos filhos, a formatura? Esta é uma resposta difícil, na medida em que é crescente o número de pessoas que optaram por não casar, as mulheres que optam por não ter filhos, a crescente aceitação de casais homossexuais, os casais separados, as famílias reconstituídas. Assim, ingressar na adultez é viver e sobreviver a uma contínua experiência de crise, nada tranqüila. A necessidade de respostas às expectativas sociais, familiares e pessoais, é intensa e incessante. Estas exigências incluem todos os setores: afetivo, sexual, produtivo e criativo. Assim, cuidar das novas gerações é manter viva a antiga e, ao mesmo tempo, contradizê-la com os aspectos novos construídos na relação com o filho. É dar um colorido novo para o que nunca deixa de ser “familiar”; é possibilitar um fim para a geração que passou, abrindo espaço para a nova, sem que isso represente uma morte total da antiga (Outeiral e Cols.,2008).

Os autores destacam, ainda, que o adulto é aquele que falha, pois, traz em si a marca da sua divisão, da ambigüidade entre sua vontade consciente e seus desejos inconscientes. Traz em si uma criança, muitas vezes incômoda ao se deparar com a criança real do presente. Trata-se de uma confusão de leis que marca a entrada do infante no universo. O exercício da maternidade e paternidade exige entrega de afeto e desprendimento que só com maturidade são possíveis de serem alcançados. Ao homem é permitido envolver-se e vincular-se ao filho a partir de sucessivas experiências de cuidado no cotidiano, bem como, a mãe poderá desenvolver-se profissionalmente, não estando integralmente com os filhos, sem que para isso tenha que destituir-se ou sobrecarregar-se nas funções maternas/paternas.

Abrir espaço e colocar limite é um dilema diário ditado pela maternidade e paternidade. Dilema este que exige maturidade do adulto jovem. As dificuldades nesse sentido podem progredir para relações de vínculos patológicos. A seguir, a idéia central de algumas categorias de relações não consideradas como saudáveis, comumente observadas por especialistas:

O modo como vivem os adultos de referência das crianças e adolescentes e a convicção que estes adultos demonstram ter naquilo que fazem, direciona a formação da identidade dos filhos. Nesse sentido, Outeiral e Cols. (2008) reafirmam que o tipo de interação estabelecido entre pais e filhos, bem como as expectativas e sentimentos dos pais em relação aos filhos, exercem um papel muito importante no tipo de personalidade futura dos filhos e no êxito escolar dos mesmos.

Assim, as experiências vivenciadas pelo jovem, tanto no contexto familiar quanto nos outros ambientes nos quais ele está inserido, contribuem diretamente para a sua formação enquanto adulto. No âmbito familiar, o indivíduo vai passar por uma série de experiências genuínas em termos de afeto, dor, medo, raiva e inúmeras outras emoções, possibilitando um aprendizado essencial para a sua atuação futura.


*Texto baseado no livro ‘Adultecer – a dor e o prazer de tornar-se adulto’ de José Outeiral, Luiza Moura e Stela dos Santos – Orgs. (2008), e no artigo ‘Família e adolescência: a influência do contexto familiar no desenvolvimento psicológico de seus membros’ de Elisângela Maria Machado Pratta e Manoel Antonio dos Santos. (Revista Psicologia em Estudo - ago/2007).