Colégio João Paulo I

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A "Dupla Revolução" e as contradições do mundo contemporâneo

Cássio de Oliveira Pires


Dupla revolução”? O que isso quer dizer? Ora, algo que é duplo contém duas coisas, logo, “Dupla Revolução” são duas revoluções que devem ser entendidas em conjunto. Trata-se da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, iniciadas na Europa do século XVIII.

O termo “dupla revolução” foi usado na obra de um dos historiadores mais influentes do século XX: Eric Hobsbawm. Em seu famoso livro “Era das Revoluções”, ele escreveu de forma muito clara o que quer dizer com “dupla revolução”. Ele disse que “se a economia do mundo do século XIX foi formada principalmente sob a influência da revolução industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução Francesa. A Grã-Bretanha forneceu o modelo para as ferrovias e fábricas [...] A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal” (p. 71).

Com isso, o historiador quis dizer o seguinte: a Inglaterra introduziu no mundo uma nova forma de economia com a invenção da indústria. Mais ou menos ao mesmo tempo, a França popularizou as idéias políticas (direitos individuais, o poder emanando do povo e não do rei etc) que se espalharam pelo mundo inteiro a partir de então. Por isso, podemos falar em uma “dupla revolução”: juntas, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial lançaram as bases da economia e da política do mundo em que vivemos hoje. Por isso, marcam o final da Idade Moderna e o princípio da Idade Contemporânea.

Um exemplo da importância dessas revoluções? Enquanto elas aconteciam foram criadas diversas palavras para que as pessoas pudessem chamar as coisas novas que surgiam. Algumas delas são “indústria”, “fábrica”, “capitalismo”, “socialismo”, “ferrovia”, “engenheiro”, “proletariado”, entre outras. Tudo isso estava surgindo nessa época!

Mas por que, afinal, estudar a “dupla revolução”? Porque foram essas duas revoluções que abriram uma janela para o mundo contemporâneo, alterando-o profundamente. O Antigo Regime europeu, o tempo em que os nobres dominavam, tornava-se passado à medida que uma nova forma de organização da produção, a indústria, substituía as antigas manufaturas. O tamanho das cidades aumentava radicalmente e o número de pessoas no campo diminuía cada vez mais. Somando-se a isso, os revolucionários franceses acabavam com os privilégios da nobreza, propondo a igualdade perante a lei: todos devem ser cidadãos, iguais em direito. Encerrava-se, aos poucos, o tempo da nobreza. Abria-se o tempo de uma nova classe dominante: a burguesia.

Mas a igualdade das pessoas perante a lei, a destruição de uma camada de privilegiados (a nobreza), as novas tecnologias do século XIX (ferrovias, motor de combustão interna etc.), somadas a uma velocidade de produção de bens jamais vista, não acabaram com as desigualdades do mundo. Variadas formas de injustiça permaneceram no planeta. O mundo que se iniciou com a “dupla revolução”, baseado na produção industrial (economia) e nas democracias liberais (política), é o mundo em que vivemos atualmente. Por inúmeras razões, este mundo é repleto de riquezas e de indivíduos usufruindo de direitos. Mas, ao mesmo tempo, também está cheio de pobreza e de seres humanos que nem sequer são reconhecidos como indivíduos de verdade. Em resumo, é um mundo repleto de contradições.