Colégio João Paulo I

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O futuro dos nossos filhos: como lidar com a questão das drogas?

Quando tudo vai bem na vida dos filhos, há quem diga que os pais tiveram muita sorte. Quando alguma coisa sai errada, acusam os pais de terem falhado. Simplistas e injustas, essas noções são freqüentes. Quando o problema com os filhos envolve consumo de drogas, as coisas parecem ainda mais difíceis. A preocupação dos pais pode ser tão intensa que, como no filme “O bicho de sete cabeças” (2000), a tentativa de ajudar o filho e redimir a culpa transforma um problema, possivelmente passageiro e de solução possível, numa tragédia que afeta violentamente a vida da família e do jovem.

Sabe-se que a infância é fundamental na formação de adolescentes e adultos com diferentes constituições de segurança própria, auto-estima, preparo para a vida em sociedade e, assim, os pais são, quase sempre, os adultos mais importantes na vida das crianças. Criança precisa de limite e regras claras, mas também precisa de pequenas oportunidades nas quais possa aprender a tomar decisões. A sensação de autonomia e de capacidade de escolher é um evento muito positivo, em um ser humano ainda tão dependente dos outros. Essa capacidade de tomar decisões será muito útil mais tarde, quando escolhas realmente importantes, terão que ser feitas e a possibilidade de monitoramento dos pais será bem menor. Para desenvolver sua autonomia a criança precisa entender também os seus limites. É importante que a criança perceba que não é possível ter todos os seus desejos satisfeitos.

Em geral, as crianças entendem bem o conceito de que as pessoas ingerem coisas que fazem bem e coisas que fazem mal ao seu corpo e à sua saúde. São capazes também de entender que remédios são bons para as pessoas, desde que usados com critérios. Os pais podem começar a conversar sobre remédios com seus filhos desde muito cedo. A comunicação com adolescentes, sobre qualquer assunto, torna-se um desafio, uma arte, principalmente quando esse adolescente é o seu filho. A reação, quando tentamos conversar, é, em geral, pouco encorajadora: ficam impacientes, sonolentos, mudam de assunto, irritam-se (“você não entende, não é nada disso…”). Nos dias em que estão de bom humor, talvez nos brindem com comentários como “tá bom mãe, já sei, você já falou mil vezes…”; “tá bom, pai, agora posso sair?” Além de provocar desânimo e frustração nos adultos, a sensação que esse tipo de conversa suscita é de total perda de tempo. As pesquisas, no entanto, dizem que vale a pena conversar. Por isso, acertar o tom, o horário e o local das conversas é tão importante. Comentários do tipo “só podia ser você mesmo” ou “você só me traz desgosto”, mesmo que sejam sinceros da sua parte, devem ser evitados. Esse tipo de rotulação provoca pouca vontade de mudar naquele que está sendo criticado. (“se meus pais acham que eu só trago desgosto mesmo, por que tentar melhorar…?”). Sarcasmo e humilhação são armas poderosas, que podem ferir, de modo profundo, a auto-estima dos adolescentes.

Se por um lado se tem feito muito nos últimos tempos para que as pessoas se previnam contra o uso de drogas, também muito se tem feito, legal e ilegalmente, para que elas sejam usadas. O resultado final é que as pessoas con­somem cada vez mais drogas. Os pais dizem que maconha é ruim, que é a porta de entrada para outras drogas, que destrói a pessoa e a famí­lia. Na escola, a criança aprende que droga faz mal, e por volta da quarta, quinta série, a criança já dispõe de alguma informação sobre a maconha. Dessa maneira, como tem pouco acesso aos elementos sedutores das drogas ilegais, ela fica com a imagem de que são ruins. O patrulhamento feito por ela é pior até do que no caso do cigarro. Por essa razão, a criança fica preservada até a fase em que começa a ter mais independência ou liberdade. Quando passa a freqüentar festinhas, a sair com amigos, o adolescente repara no outro lado da maconha, naquele sobre o qual as pessoas nunca falavam. Um dia fica sabendo de alguém que fuma maconha. Talvez nem se interesse pela pessoa, porém o mais comum é querer se aproximar para checar os conheci­mentos que já tem. E aí, a grande surpresa! No lugar de um ser humano em destroços, encontra-se uma pessoa simpáti­ca, que faz sucesso na turma. E com um ou dois anos a mais do que ele. Então, se for inseguro e quiser parecer mais velho, acha que conseguirá ao acender um “baseado”. Aos poucos, o adolescente vai reunindo muita informação sobre a maconha, que contradiz tudo o que aprendeu quando criança. Não importa se as fontes são pouco confiáveis.

Sem acesso à verdade das informações, o jovem acre­dita no que vê e testemunha. Aprende a aceitar os velhos argumentos de que "a maconha faz menos mal do que ta­baco e álcool". Na cabeça dele é isso mesmo que parece. "Então, por que não legalizam a maconha, já que existem coisas piores que são legalizadas?" Ele se baseia em infor­mações erradas, sem comprovação científica, que minimizam os prejuízos e maximizam o prazer. "Se todo mundo fuma por que eu não vou fumar?" Esse desejo brota justamente no momento em que o adolescente está mudando de referências e quer se relacionar com pessoas de sua idade. Agora os amigos passam a ser mais importantes do que a família. O que os amigos falam e fazem é supervalori­zado, enquanto as posições da família são desdenhadas. A influência dos pares passa a ser mais forte que a dos pais.

Em momentos de crise, a tendência dos pais é exage­rar nos traços que já apresentavam antes. Os agressivos tornam-se violentos; os depressivos, culpados; os controla­dores aprisionam os filhos em casa; os medrosos se calam; os “folgados” esperam que "isso seja coisa da juventude"; os assustados entram em pânico etc. Essas reações pouco ajudam. Só o amor também não basta. Diálogo é ótimo, mas só ele não resolve. Os pais e educadores precisam se habili­tar para trabalhar com o jovem, caso a droga entre em sua vida. Como ninguém escapa do assédio dela, é necessário estar preparado para essa eventualidade. A crua realidade demonstra que não existe segurança absoluta na afirmação "Meu filho jamais vai usar drogas".

Quanto mais cedo for detectado o uso de drogas, tanto maiores, mais fáceis e mais baratas serão as chances de recupera­ção. Um comportamento estranho do adolescente pode levar os pais a desconfiar que o filho esteja usando drogas. A primeira atitude a tomar é se preparar para encarar o pro­blema. A droga em questão é a maconha? Então é importante que sejam levantadas informações a respeito, aumentando o conhecimento para enfrentar melhor o problema. De posse dessas informações, os pais se conscientizam dos perigos reais do uso, tornam-se capazes de identificar sinais com mais objetividade e saber o que e onde procurar. Alguns esconderijos de droga (que alguns chamam de “mocós") são bastante comuns: atrás de qualquer gaveta pode-se encontrar pacote grudado com fitas adesivas, envolvido em saquinhos plástico (se for maconha, é para não trazer cheiro: atrás dos espelhos da tomada de luz; dentro das caixas de som , por ser um local oco. Lembremos que sair do quarto de mãos vazia não afasta a suspeita, porque o adolescente talvez não esteja guardando a droga em casa. É preciso observar outros sinais. Caso encontre algo diferente, o melhor é ir direto ao filho e perguntar, cara a cara, do que se trata. Não adianta esperar, na ilusão de que aquilo não pertence a ele. Não precisa perguntar onde ele a comprou ou quem a vendeu, pois dificilmente ele responderá. O adolescente pode se calar e até negar tudo. A resposta típica é dizer que guardou para um amigo. Pode até ser verdade, mas na maioria das vezes é mentira. Se for verdade, ele já está sendo conivente com o uso, portanto se ainda não estiver usando está prestes a fazê-lo.

São raros os adolescentes que pedem socorro ou pro­curam tratamento por iniciativa própria, ainda mais quan­do estão na fase de namoro com a droga. O auxílio é dis­pensado porque eles não se julgam doentes. Somente quando o uso da droga começa a ficar incontrolável é que sentem os prejuízos e tendem a aceitar a participação num trabalho em seu benefício. Buscar o auxílio de alguém experiente no assunto, um familiar, um profissional ou um grupo de ajuda é sempre recomendado. Assim, os filhos são forçados a entender que, se nem os pais podem com a droga, para sair dessa é preciso aceitar ajuda. Se os próprios pais reconhecerem sua impotência perante as drogas, solicitando ajuda externa, os filhos perceberão que necessitam de auxílio. Outro erro comum é perguntar quem forneceu a maconha. Dificilmente se obtém resposta. A pior coisa do mundo para o jovem é entregar os amigos. Também não importa tanto saber quem arrumou, o importante é que ele pegou. A idéia-chave é a seguinte: Por que você pegou? Culpar quem forneceu inocenta o consumidor. É como se dissesse: "Ele não fez porque quis, as más companhias foram as culpadas".

Por serem responsáveis pelos filhos, os pais devem ter uma natural autoridade para encaminhá-los ao tratamen­to. Do contrário, a droga manda no filho e o filho manda na família. Logo, quem manda na família é a droga. Se alguém desmaia, primeiro é levado para consulta e lá se pesquisa a origem do distúrbio. Por que não ocorre o mesmo com as drogas? Se for vício, é doença. Mesmo não sendo, já é um problema. Doença ou problema, ambos pre­cisam ser resolvidos e tratados por pessoas capacitadas.


Texto baseado no livro Juventude e Drogas: anjos caídos, de Içami Tiba (2007) e na publicação ‘Cartilha para adolescentes’, da Secretaria Nacional Antidrogas (2005).