Colégio João Paulo I

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Degradação ambiental – como reverter esse quadro?

Maria Alice Schida Corrêa*


Nas últimas décadas, ocorreram grandes e significativas mudanças no campo sócio-econômico e político, na cultura, na ciência e na tecnologia do mundo todo. Essas transformações tornaram possível o surgimento da era da informação e de novas formas de comunicação, mas também de inúmeros problemas sócio-ambientais. Diante desse quadro, vivemos uma época de grandes preocupações, uma vez que estamos diante de um quadro caótico: miséria, desemprego, violência, degradação ambiental tão grande, que já existe ameaça para a própria continuidade da vida no planeta.

Hoje, em poucos minutos, temos acesso às mais diversas informações sobre os problemas que afetam o mundo, mas não sabemos o que ocorre com o nosso vizinho que mora ao lado. Que paradoxo! A sociedade de consumo permitiu uma nova orientação comportamental e/ou cultural, revelando uma crise social decorrente da deterioração das relações interpessoais e das desigualdades sociais. As novas formas de comunicação e de consumo alteraram as formas de relacionamento entre as pessoas. Estes se tornaram superficiais, efêmeros, rápidos e descartáveis. Enfim, o progresso tecnológico e a liberdade política e de consumo não são sinônimos de desenvolvimento humano.

Quanto aos problemas ambientais, não basta apenas ter informações sobre o aquecimento global, o derretimento das calotas polares, por exemplo. Faz-se necessário realizar pequenas ações no cotidiano, mas também transcender as reflexões acerca das relações homem/homem, homem/sociedade mercadológica. Ou seja, ver o contexto e o global, nos quais as relações sociais, as relações afetivas e espirituais se manifestam, não apenas como um cenário onde o homem atua e explora a natureza como reserva de matéria prima e percebe o outro como concorrente.

Estamos cotidianamente envoltos por movimentos competitivos, em que seres humanos se isolam, excluindo o outro do convívio, das relações e se distanciando da natureza como um todo; sujeitos que se colocam fora do ambiente natural/cultural como se a estes não pertencessem.

Sendo assim, como reverter essa situação? Como provocar a reflexão, promover a discussão e uma ação transformadora de consciências no âmbito social? Qual é a nossa postura diante de tudo isso? Que concepções de homem, natureza, meio-ambiente perpassam as nossas relações?

Acredito que precisamos de uma nova maneira de entender a vida, a natureza, a sociedade e as suas múltiplas relações. Penso que também é papel de cada um de nós despertar a consciência de reciprocidade entre ser humano e o meio natural e cultural. Na prática, significa tentar estabelecer uma relação, não de poder do ser humano sobre a natureza, mas de inter-relação e interdependência, vivenciando os valores humanos (solidariedade, respeito, justiça, amorosidade, generosidade) e adotando uma conduta ética na sociedade como um todo.

Outro aspecto que gostaria de destacar é o Cuidado, porque este contempla o resgate da essência humana. O Cuidado consigo, com o outro como legítimo Outro, e do nosso planeta. Só cuidamos daquilo/daquele que nos sentimos responsáveis e também porque dele fazemos parte. Valorizando o Cuidado, resgatamos a preservação e o respeito à vida nas ações sociais e nos relacionamentos continuamente movidos pela emoção.

Assumir a nossa humanidade é afirmar a nossa amizade co-operária com o próprio ritmo da vida: seus riscos, suas perdas, sua provisoriedade. Quando essa amizade é esquecida, quando o diálogo e a troca são substituídos pelo projeto de dominação e controle, o homem se isola diante da natureza e diante dos outros homens. (Unger, 2001: 42)

A idéia de mudança de paradigma na visão de mundo deve começar na família e na escola, buscando a superação de determinados conceitos e preconceitos decorrente de uma visão de mundo fragmentada, linear e antropocêntrica. Isso requer um processo de autoformação e formação a partir de uma visão global, integrada e sistêmica.

Nesse cenário, reside o nosso desafio, que é tornar o ser humano mais humanizado, capaz de estabelecer relações saudáveis de respeito, diálogo com o outro, com as culturas e com a natureza. Mais do que isso, reaproximar o ser humano ao seu ambiente natural, social, histórico e cultural e dos valores humanos, éticos, estéticos, morais e espirituais.

Saliento que a natureza e a cultura não constituem dualidades excludentes; é necessário passar a enxergar a natureza na cultura e a cultura na natureza. E o ser humano como parte desse todo. Se há uma nova forma de ver o mundo, a cidadania a ser construída deve ser de outra ordem: uma nova cidadania, a cidadania planetária.

Há uma necessidade de pensar e repensar a complexidade dos fenômenos ambientais que afetam o planeta e que tem a ver com a forma como a humanidade vem-se relacionando com a natureza, com os outros seres vivos e entre si. Necessitamos renunciar ao automatismo de nossos hábitos e a segurança do que acreditamos já saber.

Diante de tudo isso, a educação é um valor extremamente importante. Educação não significa, apenas, adquirir conhecimentos, coligir e correlacionar fatos; é compreender o significado da vida como um todo. Educação é compreender a vida, é a busca de compreendermos a nós mesmos; e este é o princípio e o fim da educação do qual todos nós somos responsáveis.

Para finalizar este texto, gostaria de citar o filósofo e pensador contemporâneo francês, Edgar Morin (2003, 75): “Aquilo que porta o pior perigo traz também as melhores esperanças: é a própria mente humana, e é por isso que o problema da reforma do pensamento tornou-se vital”.

Meu desejo é que todos nós contribuíssemos para povoar o mundo de pessoas mais humanas, solidárias e de cidadãos participativos, para que possamos construir uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária, construindo juntos uma consciência de pertencimento – plural e complexo – ao Cosmo. E, para concretizar esse sonho, isso é só o começo. Cada um tem apenas que fazer a sua parte, revendo ações, repensando atitudes e realizando práticas, objetivando uma melhor qualidade de vida para as atuais e futuras gerações.

Pequenos gestos que podem fazer a diferença:


Referências Bibliográficas
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8ª ed. São Paulo: Corte; Brasília: UNESCO, 2003.
UNGER, Nancy M. Da foz à nascente: o recado do rio. São Paulo: Cortez, 2001.

*Pedagoga especialista em Educação Ambiental, mestranda em Educação na linha de pesquisa Ensino e Educação de Professores na PUC-RS. Professora do Colégio João Paulo I e Diretora Pedagógica da DASP - Consultoria em Administração e Educação)