Colégio João Paulo I

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Conhecendo o Barroco Mineiro

Marta Lima Martins Costa

Em junho de 2008,recebi um convite para acompanhar um grupo de dezessete alunos de sétima eoitava séries do Colégio João Paulo I numa viagem de estudos a Minas Gerais.Sempre que lia sobre a arte barroca tinha especial curiosidade por conhecer asobras do Aleijadinho que estão espalhadas por aquelas paragens. O que eu nãoimaginava eram a emoção e o impacto que essas experiências me causariam. Forammomentos marcantes onde, em uma quantidade muito grande de lugares e detalhes,tivemos a oportunidade de vivenciar conhecimentos estéticos e relacioná-los aoutros campos de conhecimento.

Algumas lembranças ficaram um bom tempo circulando pelo meu corpo como um apito de trem. Como aquele som ouvido repetidamente na Estação da pequena cidade de Mariana. Quero anotá-las antes que a fumaça do tempo dissipe todas pelo ar. Sim, alguns dos lugares que visitamos foram realizados a bordo de um trem, que é um meio de transporte bastante utilizado na região do Caminho do Rei. Essa estrada incluiu destinos como Ouro Preto, Tiradentes, Mariana, São João Del Rei, Congonhas, Sabará e outros lugares adjacentes.

Chegando a Ouro Preto, tive a sensação de ter voltado no tempo. A maioria das ruas ainda possui as pedras originais da época em que os escravos devem tê-las colocado. Por sua textura irregular, esse tipo de calçamento foi apelidado de pé de moleque. A topografia é repleta de altos e baixos e. para qualquer lado que eu olhasse, via uma igreja. O simpático guia que nos acompanhava explicou que, na época do Ciclo do Ouro, apogeu do poderio e riqueza da cidade, o reino proibiu as ordens religiosas de se instalarem naquela região para que as mesmas não interferissem nas relações econômicas do lugar. Ficou para as Ordens Terceiras ou Irmandades (associações de leigos) a tarefa de construir Igrejas. Além de exercício de fé, essas associações eram centros que reuniam os indivíduos de acordo com suas posições sociais. Em virtude disso, existiam muitas Irmandades diferentes, que competiam entre si. Cada uma construía a sua Igreja, de preferência mais bonita e luxuosa que a dos vizinhos. Ganhava a Igreja Católica que mantinha seu poder, ganhamos nós que agora podemos usufruir esses ricos testemunhos históricos.

Que alegria foi a chegada na Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto. Nossa primeira parada. Projetada em 1766 pelo Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa), o exterior do prédio destaca-se pela originalidade das torres curvas. O interior é Rococó, correspondendo ao terceiro período do Barroco Mineiro. A leveza do branco e dourado do altar contrasta com o magnífico colorido do teto pintado pelo Mestre Ataíde (Manuel da Costa Ataíde). Olhando para cima, vi colunas de mentira, arcos em forma de concha, nuvens e anjos que rodeavam a figura central da Nossa Senhora. Percebi que todas as figuras foram pintadas com feições mulatas. Encantada com aquela síntese de brasilidade, toquei, com carinho, na história do meu país. Tanto o arquiteto-escultor quanto o pintor eram mulatos e venceram pelo incomparável talento o cruel preconceito da época.

Uma entrada no interior de uma Igreja Barroca é uma experiência sensorial. A Igreja da Matriz de Nossa Senhora do Pilar é a representação máxima da segunda fase do estilo barroco chamada de Joanina. Ao entrar nela, senti na pele o significado da palavra vertigem. Ainda que fosse permitido tirar fotos, eu provavelmente não teria lembrado de tirá-las. Por alguns instantes, não sei precisar o infinito tempo que passou, senti apenas uma vertigem. Total deslumbramento. Olhos dourados tentando acompanhar curvas e curvas e cantos e voltas e santos que Deus nos acuda! Que mãos calejadas talharam na madeira aquela imensa quantidade de detalhes rocambolescos subindo como trepadeiras pelo interior do templo? Em cada nicho dourado, imagens assustadoramente vestidas e adornadas com jóias. Suas perucas foram doadas por moças que cortaram seus cabelos por terem alcançado graças. Quem diria? Essas imagens “de roca” passearam pelas ruas em procissões e rituais de fé. Há um cheiro estranho dentro da Igreja, tudo lá aguça os sentidos. É o passado que agora é dourado, mas já foi pérola torta, feito de sangue escravo e cobiça. É um excesso de uma beleza esquisita, barroca.

Minas, que terra rica! Minas por todos os caminhos, minério escoando pelas, ainda hoje, precárias estradas. Uma grande surpresa brotou quando visitamos a Gruta do Rei do Mato e a Gruta de Maquiné no Município de Sete Lagoas. Olhando aquela monótona paisagem de cerrado pela janela do ônibus, não poderia imaginar o que se escondia por baixo da terra. Descendo por estreitos caminhos da caverna, depois que o olho se acostumou à escuridão, aconteceu-me a visão do sublime. Aquele momento em que nos sentimos muito pequenos, com uma absoluta consciência do tempo e da grandeza da Mãe Terra. Paciente escultora que fez ali, com água e cálcio, a mais pura arte.

Um de meus prazeres foi o de observar a postura de meus jovens companheiros de aventura. Também eles, naquele momento, tinham novas cores nos olhos. Cabeças abertas para aprender! Um paraíso para uma professora! Encham os olhos! Essa era a frase que eu repetia de vez em quando.

Terminando este relato, quero lembrar a beleza da Igreja de São Francisco de Assis em Belo Horizonte. Às margens de um lago, o arquiteto Oscar Niemeyer, o pintor Cândido Portinari e o escultor Alfredo Ceschiatti traduziram a influência do passado barroco na alma da arquitetura modernista brasileira. A leveza do prédio é total. As linhas, de tão limpas, viraram para mim uma oração. Com paz no coração, aceitei o acolhimento dos braços de São Francisco pintados em azul e branco nos azulejos da fachada.